Ao longo do enredo de Insensato Coração, muitas coisas me incomodaram:
1. As soluções estapafúrdias encontradas pelos autores: Sequestrador morto ao ser cortado no tornozelo com uma faca de pão. Helicóptero que invade o pátio da cadeia com uma corda, matando uma dezena de policiais e arrancando um prisioneiro de lá. Personagem que possui uma chance em um milhão de engravidar que engravida duas vezes ao longo da novela...
2. Protagonistas pastéis, sem enredo e sem carisma (e a culpa é muito mais do roteiro do que dos atores. Paola Oliveira deu um show em outros papéis).
3. A narrativa soap opera: personagens que entram numa semana e saem na seguinte, minitramas irrelevantes para a condução da narrativa principal, como os casos Lavínia Vlasak e José Wilker.
4. A proliferação de mortes: 25 ao longo da trama.
5. A falta de caráter generalizada: A mocinha patética metendo a mão na cara de Lavínia Vlasak. A vítima boazinha que mata a colega da cadeia.
6. Os figurinos que ajudaram muito pouco a definir as características das personagens (com exceção de Natalie), servindo apenas como desfile de moda.
7. A falsa promessa do caso José Wilker: Tia Neném insinuava que ele seria pai de um dos filhos de Wanda, mas a trama não vingou.
8. As personagens caracturais: Bibi, André.
9. A proliferação de personagens sem graça, sem sal, fakeados de bonzinhos: Rafa, Cecília, Marina, Alice.
Entretanto, tendo o enredo chegado ao final, sou obrigado a admitir pontos positivos da novela:
1. Excelente intervenção social em relação à homofobia, com as agressões sofridas por Xicão e Gilvan.
2. Capacidade admirável dos autores de amarrarem, nos últimos capítulos, os acontecimentos aparentemente aleatórios ocorridos ao longo dos capítulos.
3. Personagens marcantes e bem construídos: Léo, Norma, Douglas, Roni, Natalie, Cortez, Tia Neném, Eunice.
4. Sequências sensacionais, como a falsa morte de Léo, a primeira prisão de Cortez, o desfecho do golpe sofrido por Carmem, a morte de Léo.
5. Últimos capítulos empolgantes.
Também admito que a aparente ausência de uma trama principal, que persistiu durant
e quase toda a trama, foi solucionada a partir da vingança de Norma em relação a Léo, que acabou ocupando esse lugar. Prevista desde o começo do enredo, essa trama não surgiu de cara: o protagonismo (ao menos proposto) não pertencia à personagem de Glória Pires.
Em minha opinião, essa aparente ausência de trama principal se deveu ao fato de o acidente que matou Luciana ter sido apresentado quase como um evento aleatório. Só do meio da novela pra frente, pudemos saber que a queda do avião foi, na verdade, um golpe de Léo. Se isso tivesse sido explicitado desde o começo, entenderíamos a trama principal como a inveja de Léo a Pedro (o que parece ser, na verdade, o que os autores tentaram propor infrutiferamente). Pra que esconder a vilania desse personagem? Além de atrapalhar o esclarecimento do enredo, não parece ajudar nada na construção dele. Em casos como Flora (A Favorita, 2008-2009) e Clara (Passione, 2010-2011), isso fez sentido, mas não aqui.
Enfim, pra mim, Insensato Coração foi uma novela ruim, com algumas características muito interessantes.



