"Nunca tive uma única cena que fosse cortada por parecer ousada demais aos olhos da emissora [Rede Globo]. A não ser nas vezes em que tentei escrever o tal beijo gay, sobre o qual paira uma espécie de maldição, que eu não entendo, mas aceito [...] Desisti de dar beijo gay na televisão. Agora só dou beijo gay em casa”.
As palavras acima são de Aguinaldo Silva, autor de “Senhora do destino” (2004), novela que contou a história de duas namoradas que passaram a morar juntas e adotaram um bebê, Eleonora (Mylla Christie) e Jenifer (Bárbara Borges).
Antes disso, Manoel Carlos já havia contado uma estória parecida em “Mulheres apaixonadas” (2003), quando Alinne Morais e Paula Picarelli interpretaram Clara e Rafaela, duas alunas do ensino médio que enfrentavam preconceito na escola em que estudavam.
Até hoje, a autora que tratou com mais sensibilidade a questão do preconceito e mais se aprofundou no tema homossexualidade, foi Glória Perez, em “América” (2005), em que Bruno Gagliasso interpretou o adolescente Júnior.
Em algumas novelas, o assunto foi tematizado não pelo viés do preconceito, mas por seu inverso: o respeito e a tolerância. Exemplo dessa tematização é o da novela “Paraíso tropical” (2007), de Gilberto Braga e Ricardo Linhares. Nela, Carlos Casagrande e Sérgio Abreu interpretaram Rodrigo e Tiago, um casal de homens bem-sucedidos e aceitos por todas as outras personagens.
Há quem diga que esse tipo de representação mascara a realidade, ocultando as dificuldades que um casal homossexual enfrenta. No entanto, é inegável o potencial das novelas de influenciar e mexer com os valores e hábitos de grande parte da população. Assim sendo, esse viés também pode ajudar a diminuir o preconceito, apesar de não tematizá-lo.
Na novela “A Favorita” (2008), de João Emanuel Carneiro, havia duas personagens homossexuais. Stela, vivida por Paula Burlamaqui, era apaixonada pela amiga Catarina, Lília Cabral, que, todavia, era heterossexual. Catarina entendeu bem a situação, e as duas resolveram tudo mantendo a amizade.
Na mesma novela, entretanto, Orlandinho, Iran Malfitano, foi uma personagem que começou hétero, descobriu-se gay e voltou a ser hétero no final. É claro que vai-e-vens relacionados à sexualidade ocorrem na vida de muitas pessoas, e esse desfecho em si não é um problema.
No entanto, em “Caras e bocas”, de Walcyr Carrasco, novela que chegou ao fim nesta semana, o personagem Cássio, de Marco Pigossi, por pouco não teve um desfecho idêntico. O moço, que começou a novela homossexual, havia se descoberto um “bofe escândalo” e passou a viver com Léa (Maria Zilda).
A repetição da narrativa gerou certa preocupação entre homossexuais que se interessam por teledramaturgia, incentivando um certo número de protestos na Internet. O alegado era que a “conversão” dos gays em héteros estava virando lugar comum e “final feliz” nas novelas. Mas Walcyr Carrasco resolveu dar outro final para Cássio, que se separou de Léa e terminou a novela com André (Ricardo Duque).
Entretanto o autor tratou o desfecho dos dois com muita descrição: nenhum abraço, carinho, declaração de amor, e muito menos um beijo. Não é para menos, devido à posição da Globo.
Alguns autores já tentaram reverter essa posição. Bruno Gagliasso chegou a gravar um beijo com Eron Cordeiro, que vivia o peão Zeca, para o último capítulo de “América”, mas a cena não foi ao ar.
Aguinaldo Silva também tentou emplacar um beijo entre Carlão e Bernardinho, personagens de Lugui Palhares e Thiago Mendonça em “Duas caras” (2007), mas foi impedido pela emissora.
A Globo já chegou a ir mais além na questão homossexualidade. Em “Torre de babel” (1998), de Sílvio de Abreu, Alcides Nogueira e Bosco Brasil, as personagens Leila e Rafaela (Cristiane Torloni e Sílvia Pfeifer) eram bem-sucedidas e aceitas pelas demais personagens, mas não foram bem aceitas pelo público, e morreram na explosão de um shopping, no começo da novela.
Em “Desejos de mulher” (2002), de Euclydes Marinho, a personagem Ariel, de José Wilker, iniciou a trama casado com Tadeu, Otávio Muller. Mais uma vez, devido à má recepção do público, a história foi mudada toscamente e eles passaram a ser apenas amigos.
Claro que a Globo não é a culpada por tudo o que ocorre no país. O público hoje já é mais aberto e em parte por causa das próprias novelas, e esses absurdos já não mais acontecem. Mesmo assim, até quando esse tabu irá permanecer?