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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A fórmula de sucesso de Caras e bocas


Bom humor, ótimo texto, excelentes interpretações e ritmo acelerado. Esses foram os ingredientes do sucesso de “Caras e bocas”, atual novela das sete, da Rede Globo, que chega ao fim nesta semana.

Walcyr Carrasco, autor de sucessos como “Alma Gêmea” e “Chocolate com Pimenta”, sabe como ninguém escrever um texto leve, dinâmico e bem humorado. Em sua atual novela, isso não foi diferente. “Caras e bocas” traz, no entanto, um diferencial em relação às novelas anteriores do autor: um ritmo mais acelerado, muito adequado ao horário das sete.

A novela foi cheia de vai-e-vens. Cada personagem, apesar de manter sua personalidade, teve sua história virada de cabeça para baixo. Caco (Rafael Zulu) e Laís (Fernanda Machado), por exemplo, pertenciam a núcleos totalmente diferentes no início da novela, e acabaram sendo o centro de um de seus principais núcleos cômicos.

A personagem de Fernanda Machado iniciou a trama como namorada de Gabriel (Malvino Salvador), e sua angústia era desejar o casamento e não ser atendida pelo namorado. Com a reconciliação de Gabriel e Dafne (Flávia Alessandra), porém, a personagem da moça mudou de rumo e foi trabalhar na galeria de Judith (Deborah Evelyn), onde conheceu Caco. Este, por sua vez, iniciara a trama como guia turístico na África, e só então começou a conseguir maior destaque.

Inicialmente o moço não queria se envolver com Laís, pelo fato de os dois serem de raças diferentes. Mais tarde, tiveram que enfrentar o preconceito da família da moça, pelo mesmo motivo. Então se casaram, e passaram a ser infernizados pela sogra. Posteriormente, Caco começou a investir em uma nova profissão: a de modelo. Mais um tempo, e Laís engravidou. Episódios mais tarde, surgiu a mãe do moço, que também reprovava a relação dos dois, por preconceito.

Também Léa (Maria Zilda) viveu muitas fases. Foi casada com Jacques (Ary Fontoura), Frederico (Fulvio Stefanini), Cássio (Marco Pigossi) e agora Sid (Klebber Toledo).

Enfim: a história de cada personagem foi marcada por muitas reviravoltas, e Walcyr Carrasco soube surpreender o público a cada episódio. Destaca-se também sua capacidade de criar um número muito grande de personagens, conseguindo dar destaque à história de cada um deles e integrar brilhantemente os diversos núcleos.

Aliado a isso, a novela contou com excelentes interpretações, como as de Isabelle Drummond, Miguel Rômulo, Suzana Pires, Fábio Lago, Marco Pigossi e Marcos Pasquim, que souberam bem se aprimorar do texto bem humorado do autor, popularizando bordões como “é a treva”, “virado no cão”, “não me absorva”, “choquei” e “rosa chiclete”.

Até mesmo na última semana da novela, o bom-humor surpreendeu. No episódio de hoje, ao falar “Never more!”, a personagem de Ingrid Guimarães mostrou para o telespectador a tradução da frase, apontando para o lugar da tela em que ela apareceu.

Ainda seguindo a fórmula já conhecida das novelas das sete, “Caras e bocas” teve também muita ação (com seqüestros e acidentes) e sensualidade (entenda-se: atores bonitos de sunga).

O mais importante, no entanto, é que a novela não se perdeu. Muito pelo contrário: começando meio sem rumo, sem um caminho a percorrer, a trama foi se estruturando e caminhando para um esperado final: a concorrência pela presidência da empresa de Jacques (Ary Fontoura), que, como vimos hoje, foi vencida por Bianca (Isabelle Drummond).

Valcir Carrasco no horário das sete


Walcyr Carrasco sempre foi um dos maiores autores da Rede Globo. Habitualmente escrevia para o horário das seis horas, sendo responsável por sucessos como "Alma gêmea" e "Chocolate com pimenta". Desde 2007, no entanto, vem escrevendo no horário das sete, para o qual criou "Sete pecados" e agora "Caras e bocas".

Quando o autor passou por essa mudança, um amigo me disse: "Ele recebeu uma promoção!". De fato, o horário das sete tem muito mais audiência que o das seis, no entanto lembro de ter considerado preocupante que alguém que escrevia novelas das seis tão bem, fosse se arriscar em outro horário.

É estranho pensar que novelas exibidas pela mesma emissora, uma seguida da outra, possam estabelecer contratos diferentes com o público. Mas é exatamente isso que ocorre com as novelas da Globo, talvez pelo histórico de exibição dos folhetins em cada um dos horários. Se analisarmos bem, veremos que a maioria das novelas de sucesso, em seus respectivos horários, segue uma fórmula para alcançar esse resultado.

As novelas das seis devem ser românticas e inocentes, como "Alma gêmea" (2005), de Walcyr Carrasco, e "Paraíso" (2009), de Benedito Ruy Barbosa. A primeira foi a novela de maior audiência do horário, na última década. A segunda, em sua recente versão, conseguiu aumentar em 25% a audiência da faixa das seis.

As novelas da sete tem que ter ação, ser sensuais, e possuir um ritmo acelerado. Exemplos desse modelo são "Da cor do pecado" (2004), de João Emanuel Carneiro, que obteve uma média tão alta quanto a das novelas das nove; e "Cobras e lagartos" (2006), do mesmo autor, que conseguiu aumentar, em 12 pontos, a audiência do horário.

No horário das nove, as novelas devem ser polêmicas e dramáticas, tematizando sofrimento, preconceito e superação. Como "Senhora do destino" (2004), de Aguinaldo Silva, que obteve a maior média de audiência da década. Também sua sucessora, "América" (2005), de Glória Perez, obteve uma audiência muito alta, ficando no segundo lugar dessa lista.

É claro que, além de se adequar ao que o público espera da novela, para alcançar o sucesso, ela tem que ser bem escrita. Por isso, novelas como "Três irmãs" (2008), de Antônio Calmon, e "Bang-bang" (2005), de Mário Prata e Carlos Lombardi, que foram ao ar no horário das sete, não tiveram êxito. Apesar da pouca roupa dos personagens e das constantes mudanças na trama.

O fato é que Walcyr Carrasco escreve muito bem. E ele conseguiu adequar seu estilo ao horário das sete. Com "Sete Pecados", ele apenas manteve a audiência do horário. "Caras e Bocas", porém, chega em sua última semana com uma média cerca de 30% maior que a da sua antecessora.

Da próxima vez escreverei sobre a forma como "Caras e bocas" se adequa à fórmula das novelas das sete.