As novelas de Manoel Carlos são conhecidas por retratarem a vida de personagens ricos e bem-sucedidos do Rio de Janeiro, com tramas que, de praxe, se passam no Leblon. Em “Viver a vida”, porém, a ambientação também se dá na cidade de Búzios e em uma favela carioca.
Em relação a Búzios, a construção que a novela faz é de que a cidade é um lugar tranqüilo e paradisíaco, onde todas as pessoas se conhecem razoavelmente bem, e os turistas se deliciam com as belezas naturais.
Já a favela é retratada de uma maneira bastante negativa. Atualmente moram no local as personagens Sandrinha (Aparecida Petrowky) e Benê (Marcello Melo), além de José, o filho pequeno do casal (adoraria colocar aqui o nome do bebê que faz a personagem, mas nem o site oficial da novela tem essa informação),
Para começar, a favela é o único ambiente em que a fotografia é diferenciada. Quando apenas Benê morava por lá, as cenas não duravam mais que dez segundos e não apresentavam fala alguma, mesmo assim a fotografia era diferente da usada no restante da novela. Esse aspecto denota uma diferenciação e uma barreira entre o ambiente da favela e os demais locais retratados.
Além disso, a única função desse ambiente na trama, é ser parte do problema da personagem Sandrinha, que, no início da novela, viu-se apaixonada e grávida de Bené, um morador de favela envolvido em assaltos e confrontos com a polícia.
Não há nenhum morador do local com problemas próprios e boa índole, e nenhum aspecto positivo do ambiente é enfatizado. Pelo contrário: enfatiza-se apenas a violência e a pobreza.
Não quero dizer que as favelas são isentas desse tipo de problema, mas seria um grande reducionismo pensarmos que elas podem se resumir a isso. Na favela, também há muitos casos de amizade, resistência e superação, justamente aspectos que Manoel Carlos tenta tematizar na novela, mas preferindo o Leblon e Búzios para isso.
Se esse ambiente foi introduzido na novela, e o mais natural seria que isso fosse comum, já que as favelas são um ambiente importante e relevante em nosso país, não deveria ser tratado com tal indiferença.
No entanto, esse tipo de locação quase nunca está presente, e, quando está, é predominantemente da maneira mais negativa possível. Tematizações como essa puderam ser vistas em “Cinquentinha” (2009), de Aguinaldo Silva, e “O clone” (2001), de Glória Perez.
“Duas caras” (2007), de Aguinaldo Silva, mostrou aspectos diferenciados e retratou com muita humanidade a cenográfica “Portelinha”, que, no entanto, se tratava de uma favela pacificada, e por isso não sofria com os problemas relacionados ao tráfico de drogas e à violência, como as demais.
Já “Vidas opostas” (2006), escrita por Marcílio Moraes para a Rede Record, tematizou os dois lados da moeda: mostrou a pobreza, o tráfico e as dificuldades vividas pelos moradores da favela, mas também seu dia-a-dia, a organização da comunidade, e a existência de muito trabalho e honestidade.
Enquanto a teledramaturgia continuar se referindo às favelas apenas como o lugar da violência e da pobreza, só esses aspectos serão vistos por milhares de pessoas, que permanecerão tendo uma visão bitolada e estereotipada das mesmas.
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